Síndica presa por homicídio também é acusada de R$ 200 mil em fraudes no condomínio.
Uma síndica presa em Curitiba suspeita de matar um comerciante a tiros tornou-se também alvo de graves denúncias de irregularidades financeiras e administrativas no condomínio onde atuava. Segundo moradores do residencial localizado no bairro Ganchinho, na capital paranaense, a mulher, de 50 anos, teria contraído empréstimos que ultrapassam R$ 200 mil em nome do condomínio, sem autorização dos condôminos e com base em atas supostamente falsificadas. As denúncias vieram à tona após a prisão da administradora, ocorrida no início de maio de 2026, na esteira das investigações pelo assassinato do comerciante Renato Alves da Silva, de 43 anos, morto com dois tiros de revólver calibre .38 dentro de uma distribuidora de bebidas na Rua Rubens Stresser, em 27 de abril deste ano.
De acordo com relatos de condôminos colhidos pela imprensa local, todos sem se identificar por medo de represálias, a síndica jamais teria convocado assembleias formais para deliberar sobre a contratação dos empréstimos. Segundo eles, a administradora utilizava atas de reuniões anteriores adulteradas, inserindo os nomes dos moradores como se estes tivessem participado de votações que nunca ocorreram. A prática, se confirmada, caracteriza falsificação de documento particular, crime previsto no artigo 298 do Código Penal, com pena de reclusão de um a cinco anos. Além disso, contrair obrigações financeiras em nome do condomínio sem autorização assemblear contraria frontalmente o artigo 1.348 do Código Civil, que estabelece as atribuições e os limites legais da atuação do síndico.
Os moradores também relataram um padrão de intimidação que teria silenciado denúncias anteriores. Segundo os depoimentos, qualquer condômino que questionasse as contas ou solicitasse acesso a documentos da gestão era alvo de ameaças diretas. Um dos casos citados envolve ainda a cessão da caixa d'água do condomínio para a instalação de equipamentos de transmissão, com a promessa de que o valor arrecadado seria revertido em melhorias para o residencial, dinheiro que, conforme os moradores, nunca constou nas prestações de contas.
O cenário descrito em Curitiba não é isolado. O mercado condominial brasileiro convive há décadas com déficits estruturais de governança, especialmente em condomínios de menor porte e em regiões periféricas, onde o acesso à assessoria jurídica especializada é mais restrito e o controle sobre o mandato do síndico tende a ser mais frouxo. Levantamentos do setor imobiliário apontam que a maioria dos casos de desvio financeiro em condomínios envolve ausência ou irregularidade na realização de assembleias, falta de prestação de contas periódica e dificuldade dos condôminos em acessar extratos bancários e contratos firmados em nome do residencial.
A legislação brasileira, sobretudo o Código Civil e a Lei nº 4.591/1964, que dispõe sobre o regime de condomínios edilícios, estabelece mecanismos claros de controle: o síndico está obrigado a prestar contas anualmente e sempre que solicitado; qualquer dívida em nome do condomínio deve ser precedida de aprovação em assembleia; e o mandato pode ser revogado por maioria simples dos condôminos reunidos em assembleia extraordinária, convocada para esse fim. Na prática, porém, o desconhecimento dessas ferramentas por parte dos moradores é o principal fator que permite gestões irregulares se perpetuarem por anos.
No caso de Curitiba, os condôminos afirmaram ter buscado a Defensoria Pública para investigar as supostas dívidas e já iniciaram os procedimentos para a convocação de nova assembleia e eleição de um novo síndico. A Polícia Civil do Paraná (PCPR), por meio da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), segue apurando o assassinato do comerciante Renato Alves da Silva. O delegado responsável pelo caso afirmou que nenhuma hipótese foi descartada e que imagens de câmeras de segurança e novos depoimentos ainda estão sendo analisados. A suspeita permanece presa e deve responder por homicídio, podendo, a depender da conclusão das investigações sobre as finanças do condomínio, responder também por estelionato, falsificação de documentos e apropriação indébita.
O episódio reacende um debate urgente sobre os mecanismos de fiscalização e responsabilização de síndicos no Brasil, e sobre a necessidade de maior cultura de participação condominial por parte dos moradores, que muitas vezes abdicam de seu papel fiscalizador até que os danos já sejam irreversíveis.
Fonte: Banda B, veículo de comunicação de Curitiba vinculado ao Grupo RIC/Record.