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Violência no estacionamento em SP: Ex-síndico suspeito de agredir sucessor após 13 anos de polêmica gestão.

person Gabriele Fiel
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Uma briga que extrapolou os limites da política condominial e chegou à esfera policial está mobilizando moradores de um condomínio residencial em Itaquera, bairro da Zona Leste de São Paulo. O ex-síndico do edifício, identificado como Agnaldo, é suspeito de ter agredido fisicamente o atual administrador eleito, Lucas, no estacionamento do prédio. Câmeras do circuito interno de segurança registraram o momento em que o síndico em exercício foi cercado pelo antigo gestor acompanhado de familiares. O caso foi registrado na polícia e expõe, de forma contundente, o que acontece quando conflitos de gestão condominial se arrastam por anos sem resolução adequada.

A crise não surgiu de um evento isolado. Agnaldo esteve à frente do condomínio por cerca de 13 anos e, segundo relatos de moradores, sua gestão foi marcada por um perfil autoritário e falta de transparência. O estopim para a ruptura definitiva foi uma reforma na área da churrasqueira do condomínio. O orçamento inicial da obra era de R$ 55 mil, mas o valor cobrado do condomínio pelo ex-síndico chegou a R$ 77 mil. Agnaldo teria alegado que a diferença correspondia a juros e correção monetária por ter utilizado recursos próprios para financiar a obra. Os moradores, insatisfeitos com a justificativa, passaram a questionar a legitimidade das contas, e descobriram que a falta de prestação de contas era um padrão, não uma exceção.

Após o episódio da reforma, os moradores realizaram uma assembleia para destituir Agnaldo, mas o ex-síndico conseguiu retornar ao cargo temporariamente por meio de medidas judiciais, retomando o controle das contas bancárias. A situação só se desbloqueou quando a Justiça interveio de forma mais firme: um bloqueio judicial nas contas do condomínio permitiu a realização de uma nova assembleia. Lucas, que é contador e auditor, foi eleito o novo síndico e conseguiu recuperar o acesso financeiro do prédio. 

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A agressão física no estacionamento, registrada pelas câmeras, foi apenas o episódio mais visível de uma tensão que permeia a vida cotidiana do edifício. Moradores relatam viver sob constante coerção e ameaças. A esposa do atual síndico afirma que a família vive em estado de alerta e que as filhas do casal, de 4 meses e 7 anos, estão impedidas de brincar nas áreas comuns por medo de represálias. O relato revela como conflitos de gestão mal resolvidos podem comprometer não apenas as finanças de um condomínio, mas a segurança e o bem-estar de famílias inteiras.

Do lado do ex-síndico, a versão apresentada é de negação. A defesa de Agnaldo, representada por sua advogada e seu irmão, nega as irregularidades. Em declaração, o irmão afirmou que todos os balancetes e comprovantes de gastos serão apresentados judicialmente para provar a regularidade das contas, embora os moradores sustentem que esses documentos nunca foram apresentados à comunidade durante a gestão. 

O caso de Itaquera não é um fenômeno isolado no universo condominial brasileiro. Conflitos entre ex-gestores e sucessores têm crescido à medida que condomínios ganham complexidade administrativa e os moradores passam a exigir maior transparência. A Lei 4.591/64 e o Código Civil, em seu artigo 1.348, estabelecem com clareza as obrigações do síndico, incluindo a prestação de contas periódica e a convocação de assembleias para decisões relevantes, como obras de maior valor. O descumprimento dessas normas pode configurar irregularidade passível de destituição do cargo e até responsabilização civil e penal.

Especialistas em direito condominial alertam que a eleição por si só não é suficiente para garantir uma boa gestão. É essencial que condomínios estabeleçam mecanismos de controle, como conselho fiscal atuante, prestação de contas mensal aprovada em assembleia e contratos de obra formalizados com três orçamentos independentes. Quando esses mecanismos falham ou são deliberadamente ignorados, o terreno está fértil para o tipo de crise que tomou conta do condomínio em Itaquera.

A reforma do Código Civil, em discussão no Congresso Nacional, prevê instrumentos mais rigorosos para a destituição de síndicos e para a responsabilização em casos de má gestão comprovada, o que pode representar um avanço significativo para os mais de 500 mil condomínios brasileiros que dependem de uma governança saudável para funcionar. Enquanto a legislação avança, a recomendação prática para síndicos e moradores é clara: documentar tudo, exigir transparência desde o primeiro dia de gestão e acionar a Justiça sem hesitação quando os canais internos de resolução se esgotarem.

 

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Fonte: Balanço Geral 

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Escrito por

Gabriele Fiel

Colunista do Portal SBM.

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