Brasil aposta em prédios de madeira engenheirada e desafia modelo tradicional da construção civil com tecnologia já usada na Europa e Canadá.
São Paulo e outras capitais brasileiras começam a acompanhar uma tendência internacional que já transformou o setor da construção civil em países como Canadá, Suécia, Áustria e Noruega: o uso da madeira engenheirada em edifícios de múltiplos pavimentos. A tecnologia, conhecida principalmente pelo uso do CLT (Cross Laminated Timber ou madeira laminada cruzada), passa a ser analisada por incorporadoras, construtoras e escritórios de arquitetura como alternativa ao concreto e ao aço em projetos urbanos de médio e grande porte.
A adoção desse sistema marca uma mudança importante na engenharia nacional. A madeira engenheirada é produzida industrialmente a partir de camadas prensadas e coladas, formando painéis estruturais de alta resistência. Diferentemente da madeira convencional, o material passa por processos de controle técnico rigoroso, permitindo aplicações em prédios residenciais, comerciais e até hotéis. Em países europeus, edifícios com mais de 20 andares já utilizam essa tecnologia como principal elemento estrutural.
No Brasil, o avanço ainda ocorre de forma gradual, mas especialistas avaliam que o movimento pode acelerar diante da pressão do mercado por construções mais sustentáveis. O principal argumento favorável ao CLT é o impacto ambiental reduzido. Enquanto a produção de cimento e aço está entre as maiores emissoras de CO₂ do mundo, a madeira engenheirada atua como reservatório de carbono, armazenando gases capturados pelas árvores durante o crescimento florestal. Isso faz com que o material seja visto como aliado das metas globais de descarbonização do setor imobiliário.
Outro fator que chama atenção do mercado é a velocidade das obras. Como os painéis chegam prontos ao canteiro, o sistema reduz etapas tradicionais da construção civil, diminui desperdícios e exige menos mão de obra operacional pesada. Em alguns projetos internacionais, o tempo de execução caiu quase pela metade em comparação aos métodos convencionais. Para incorporadoras, isso significa possibilidade de antecipar entregas e reduzir custos indiretos.
Apesar do entusiasmo, a chegada da madeira engenheirada ao mercado brasileiro também reacende debates importantes sobre segurança contra incêndios, regulamentação técnica e adaptação das normas nacionais. Especialistas explicam que o CLT possui comportamento estrutural diferente da madeira comum e pode apresentar resistência ao fogo superior à de estruturas metálicas em determinadas condições, devido à formação de uma camada carbonizada que protege o núcleo estrutural. Ainda assim, o tema exige atualização constante dos códigos de segurança e treinamento específico para projetistas e bombeiros.
Outro desafio envolve a cadeia produtiva. O Brasil possui uma das maiores áreas de florestas plantadas do mundo, especialmente de pinus e eucalipto, o que pode favorecer a expansão do setor. Porém, a industrialização da madeira engenheirada ainda depende de investimentos em fábricas, certificações e desenvolvimento tecnológico. Hoje, parte dos materiais utilizados em projetos mais sofisticados ainda precisa ser importada ou produzida em escala limitada.
O avanço dessa tecnologia também pode impactar diretamente o mercado condominial. Síndicos, administradoras e investidores começam a acompanhar o tema diante da possibilidade de empreendimentos mais sustentáveis, com melhor desempenho térmico e redução de resíduos durante reformas e ampliações. Além disso, a tendência pode influenciar futuras exigências ambientais em novos condomínios corporativos e residenciais de alto padrão.
A discussão ocorre em um momento em que o setor da construção civil busca equilibrar produtividade, sustentabilidade e redução de custos. A entrada do Brasil nesse mercado aproxima o país de modelos internacionais já consolidados e abre espaço para uma transformação estrutural na forma de construir edifios urbanos nas próximas décadas.
Fonte: CPG Click Petróleo e Gás